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Barril de Incertezas: Como a geopolítica assumiu o protagonismo dos preços em abril

Equipe Empiricus Asset

7 maio 2026, 14:09 (Atualizado em 7 maio 2026, 14:09)

O balanço de abril

Abril foi um mês marcado por uma mudança relevante na percepção dos mercados globais e domésticos. Se o primeiro trimestre havia sido caracterizado por otimismo gradual com a desinflação e expectativa de flexibilização monetária global, abril consolidou um novo regime macroeconômico, no qual o risco geopolítico passou a ocupar posição central na formação de preços. A escalada do conflito envolvendo o Irã elevou o petróleo para níveis próximos de US$ 120 por barril, trouxe pressões inflacionárias adicionais e reduziu significativamente o espaço para cortes de juros ao redor do mundo.

Cenário Doméstico

No Brasil, o ambiente doméstico refletiu essa transição. A política monetária começou a perder protagonismo relativo para o risco externo, enquanto o debate fiscal e eleitoral voltou ao centro das atenções.

O Banco Central reduziu a taxa Selic em 25 pontos-base, para 14,50% ao ano, decisão amplamente esperada pelo mercado. O que surpreendeu foi a alteração significativa do tom da comunicação. A autoridade monetária revisou sua projeção de inflação no horizonte relevante para 3,5%, aumento de 50 pontos-base em apenas quatro meses, além de destacar explicitamente preocupações com o câmbio e com o choque de petróleo. A mensagem implícita foi clara: o ciclo de cortes permanece vivo, porém mais curto e condicionado ao cenário externo.

O mercado rapidamente internalizou essa leitura. O dólar voltou a se aproximar de R$ 5,00, a curva de juros abriu ao longo dos vencimentos intermediários e longos e observou-se maior seletividade nos ativos domésticos. Dados de inflação reforçaram essa cautela. O IPCA-15 de abril avançou 0,89% no mês, abaixo da expectativa de 0,98%, mas ainda acelerando frente aos 0,44% registrados em março. Em doze meses, a inflação passou de 3,90% para 4,37%, aproximando-se novamente do teto da meta.

O choque energético passou a contaminar expectativas. O Boletim Focus já aponta projeções inflacionárias acima do centro da meta, indicando que, embora ainda exista espaço para novos cortes de juros, o ritmo tende a ser marginal e dependente da evolução geopolítica.

Nesse contexto, ganhou destaque o pacote anunciado pelo governo para mitigar os efeitos da alta dos combustíveis. As medidas incluem subvenções ao diesel nacional e importado, incentivos ao gás de cozinha, crédito direcionado e alívio ao setor aéreo. O custo estimado pode superar R$ 30 bilhões. A estratégia oficial baseia-se na compensação fiscal via aumento de arrecadação proveniente do próprio petróleo, com royalties e participações especiais podendo gerar até R$ 40 bilhões adicionais, além de elevação de tributos sobre cigarros.

Apesar do desenho aparentemente neutro, o mercado permaneceu cético quanto à execução. Em ano eleitoral, cresce a probabilidade de políticas voltadas ao curto prazo, elevando a percepção de deterioração fiscal estrutural e ampliando o custo do ajuste necessário a partir de 2027.

O ambiente político contribuiu para essa reprecificação. Pesquisa Genial/Quaest mostrou aumento da desaprovação do governo de 49% para 52% desde janeiro, enquanto a aprovação recuou de 47% para 43%. Levantamentos como Atlas/Intel indicam cenário eleitoral equilibrado, com Flávio Bolsonaro aparecendo levemente à frente, em empate técnico com o atual presidente. Paralelamente, a rejeição pelo Senado da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal representou evento institucional raro e sinalizou maior independência do Congresso, elevando a incerteza política pré-eleitoral.

Como resposta política, o governo enviou em regime de urgência proposta para o fim da escala 6×1, reduzindo a jornada semanal de 44 para 40 horas sem corte salarial. Embora relevante do ponto de vista social, permanecem dúvidas sobre impactos de produtividade, custos trabalhistas e efetividade eleitoral da medida.

No mercado acionário, o Ibovespa refletiu perfeitamente a divisão do mês. Na primeira metade de abril, o índice renovou máxima histórica de fechamento em 198.657 pontos. O movimento foi sustentado por forte fluxo estrangeiro, com entrada de R$ 2,4 bilhões em um único pregão, R$ 14 bilhões até a metade do mês e aproximadamente R$ 70 bilhões no acumulado de 2026 até então.

A partir do dia 15, contudo, a mudança de percepção sobre a duração da guerra no Irã provocou reversão relevante do fluxo. Investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 11 bilhões, reduzindo o saldo mensal para aproximadamente R$ 5 bilhões e levando o Ibovespa de volta à região dos 187 mil pontos.

Cenário Global

No cenário internacional, assim como no Brasil, consolidou-se a percepção de que o conflito no Oriente Médio deixou de ser um evento transitório para assumir características estruturais. O colapso das negociações entre Estados Unidos e Irã, o bloqueio a portos iranianos e as ameaças ao Estreito de Ormuz elevaram substancialmente o risco energético global.

O fluxo na região caiu de mais de 20 milhões de barris por dia em fevereiro para aproximadamente 3,8 milhões no início de abril, implicando perda estimada de 10,1 milhões de barris diários na oferta global, a maior disrupção já registrada. Como consequência, a projeção de excedente global de petróleo para 2026 foi revisada de 2,46 milhões para apenas 410 mil barris por dia.

Esse ambiente contribui para a formação do que se parece uma nova ordem econômica caracterizada por choques geopolíticos recorrentes, inflação mais sensível à energia, juros estruturalmente elevados e intensificação do ciclo global de investimentos em inteligência artificial e infraestrutura energética.

A saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP após quase seis décadas reforçou a percepção de fragmentação da governança energética global. Responsáveis por cerca de 12% da oferta do cartel antes do conflito, os Emirados passam a ter liberdade para produzir acima das cotas anteriores, enfraquecendo o papel histórico da organização como estabilizadora de preços.

Na Europa, o plano Made in Europe sinaliza tentativa de reduzir dependência tecnológica da China, provocando reação imediata de Pequim e elevando riscos de novas tensões comerciais. A mudança política na Hungria, após a derrota de Viktor Orbán, reforça reaproximação europeia com o eixo ocidental, mas não altera o pano de fundo energético ainda pressionado.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros no intervalo entre 3,50% e 3,75%, reforçando a narrativa de higher for longer. A indicação de Kevin Warsh para liderar a instituição adicionou incerteza institucional relevante. Embora o novo presidente tenha adotado tom marginalmente mais dovish e enfatizado independência política, o mercado permanece atento à preservação da credibilidade do banco central em um ambiente de inflação ainda resistente.

Os dados econômicos seguem apontando resiliência. As vendas no varejo avançaram 1,7% no mês, com núcleo também surpreendendo positivamente. O PPI mostrou desaceleração no índice cheio, mas com pressões persistentes em serviços, sugerindo processo desinflacionário lento. Esse conjunto reduz a urgência de cortes de juros e sustenta atividade econômica robusta.

Ao mesmo tempo, a Suprema Corte americana considerou inconstitucionais parte das tarifas comerciais anteriores, iniciando processo de reembolso potencial de até US$ 127 bilhões a importadores. Apesar do alívio parcial, a Casa Branca já sinaliza novas medidas protecionistas, incluindo tarifas de 25% sobre veículos europeus, enquanto a China amplia influência comercial ao eliminar tarifas para 53 países africanos.

No âmbito acionário, a temporada de resultados corporativos reforçou o suporte fundamental às bolsas. Cerca de 88% das empresas do S&P 500 superaram estimativas de lucro e o índice acumula recuperação próxima de 12% desde o fim de março, renovando máximas históricas ao lado do Nasdaq.

Neste contexto, o setor de tecnologia voltou a ganhar destaque com expectativa de crescimento de aproximadamente 41% nos lucros no primeiro trimestre. Microsoft reportou crescimento de 39% no Azure e receita anualizada de IA de US$ 37 bilhões, alta de 123% ano contra ano. Alphabet entregou receita de US$ 94,7 bilhões acima do consenso. Amazon registrou lucro de US$ 30,25 bilhões, avanço de 76,6%, enquanto Meta elevou seu capex projetado para até US$ 145 bilhões, refletindo a intensidade do ciclo de investimentos. No agregado, Microsoft, Amazon, Meta e Alphabet investiram cerca de US$ 131 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial apenas no primeiro trimestre, com projeções superiores a US$ 700 bilhões em capex até 2026.

Conclusão

Em síntese, abril consolidou um ponto de virada macroeconômico. A guerra no Irã redefiniu expectativas inflacionárias globais, limitou o espaço para cortes de juros e recolocou energia e geopolítica no centro das decisões de investimento. Apesar disso, a economia americana permanece resiliente e o ciclo tecnológico segue oferecendo suporte estrutural às bolsas.

Para o Brasil, o cenário continua sendo de equilíbrio delicado. O fluxo estrangeiro permanece relevante, o valuation relativo ainda é atrativo e a dinâmica eleitoral tende a ganhar protagonismo crescente. No entanto, o choque externo e as incertezas fiscais sugerem um ambiente de maior volatilidade à frente.

Seguimos posicionados para um regime de mercado caracterizado por inflação mais persistente, juros estruturalmente mais altos e crescente dispersão de oportunidades entre setores e geografias, privilegiando ativos com capacidade real de geração de caixa e exposição a temas estruturais de longo prazo.

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Forte abraço,
Equipe Empiricus Asset