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Geopolítica e choque energético redefinem o cenário global

Equipe Empiricus Asset

2 abr 2026, 17:21 (Atualizado em 2 abr 2026, 17:21)

O balanço de março 

O encerramento do primeiro trimestre de 2026 foi marcado por uma mudança importante no regime de mercado. Após um início de ano dominado por fluxo para ativos de risco e compressão de prêmios, março passou a ser guiado essencialmente pela geopolítica. O conflito entre Estados Unidos e Irã assumiu o papel de principal variável de precificação global, deslocando o foco dos investidores dos fundamentos econômicos para a dinâmica energética e seus efeitos sobre inflação, crescimento e política monetária.

Nesse ambiente, os ativos brasileiros permaneceram fortemente correlacionados ao cenário externo, enquanto os mercados globais alternaram episódios de aversão a risco e alívio tático conforme evoluíam as notícias vindas do Oriente Médio.

Cenário Doméstico

No Brasil, o comportamento dos ativos refletiu claramente essa dependência externa. A melhora marginal do ambiente geopolítico ao longo do mês permitiu ao Ibovespa retornar temporariamente para níveis acima de 187 mil pontos. Ainda assim, a persistência do petróleo em patamar elevado reduziu a convicção em cortes agressivos de juros, levando o índice a devolver parte do rali recente e encerrar novamente próximo da região de 183 mil pontos.

Mesmo diante da volatilidade global, o fluxo estrangeiro segue sendo o principal suporte técnico do mercado local. Mais de R$ 40 bilhões ingressaram na B3 até o fim de fevereiro, evidenciando que o investidor internacional ainda enxerga valor relativo no Brasil. Esse fluxo, no entanto, tornou-se mais sensível ao ambiente global, e a escalada do conflito no Irã interrompeu parcialmente o movimento de rotação para emergentes observado no início do ano.

O choque energético passou rapidamente a influenciar a dinâmica macroeconômica doméstica. O petróleo Brent, que chegou a negociar próximo de US$ 120 por barril antes de estabilizar acima de US$ 100, reacendeu preocupações inflacionárias. Combustíveis possuem peso próximo de 5% no IPCA, o que faz com que a transmissão para preços domésticos seja relativamente rápida.

Estimativas indicam que um petróleo estruturalmente mais alto pode adicionar cerca de 0,5 ponto percentual à inflação brasileira. Ao mesmo tempo, o impacto fiscal é ambíguo. Por um lado, preços elevados da commodity tendem a fortalecer a balança comercial, podendo gerar ganho próximo de US$ 20 bilhões nas exportações caso o petróleo migre de US$ 60 para US$ 100. Há também melhora potencial de arrecadação, estimada em até 0,4% do PIB. Por outro lado, as medidas adotadas para suavizar o choque energético introduzem novos riscos fiscais.

O governo passou a discutir e implementar propostas para conter o impacto do diesel sobre inflação e atividade. Entre elas, destaca-se a criação de subsídio temporário de aproximadamente R$ 1,20 por litro para importações, com custo estimado em R$ 3 bilhões até maio. Paralelamente, foi zerada a cobrança de PIS/Cofins e criada subvenção adicional de R$ 0,32 por litro nas refinarias, podendo reduzir o preço final em até R$ 0,64 por litro.

O custo agregado dessas iniciativas pode alcançar R$ 30 bilhões, enquanto a compensação proposta via aumento da alíquota sobre exportações de petróleo para 12% geraria apenas cerca de R$ 15 bilhões. A assimetria reforça preocupações com deterioração fiscal. Não por acaso, o governo revisou a projeção de superávit primário de R$ 34,9 bilhões para apenas R$ 3,5 bilhões, valor muito próximo do limite inferior da meta de resultado zero.

Do ponto de vista da atividade, os dados confirmam desaceleração gradual. O PIB do quarto trimestre consolidou crescimento de aproximadamente 2,3% em 2025, refletindo os efeitos defasados do aperto monetário. Ainda assim, o mercado de trabalho segue resiliente, com geração superior a 100 mil vagas formais segundo o Caged, indicando que a economia ainda opera sem contração relevante.

A inflação voltou a surpreender. O IPCA de fevereiro registrou alta de 0,7% no mês, acima da projeção de 0,6%, enquanto o IPCA-15 avançou 0,44%, também acima do esperado. Apesar do acumulado em 12 meses permanecer abaixo de 4%, os núcleos seguem em níveis desconfortáveis e ainda não incorporam plenamente os efeitos da alta recente do petróleo.

Nesse contexto, o Copom iniciou o ciclo de flexibilização de forma cautelosa, reduzindo a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano. A decisão confirmou a mudança de cenário observada ao longo do mês. O mercado que anteriormente projetava cortes de 50 pontos-base passou a convergir para reduções graduais de 25 pontos-base, com taxa terminal estimada entre 12,5% e 13% em 2026.

A comunicação do Banco Central foi interpretada como levemente dovish dadas as circunstâncias adversas. A projeção de inflação no horizonte relevante subiu apenas marginalmente, de 3,2% para 3,3%, abaixo das expectativas de mercado. A autoridade monetária optou por substituir o termo flexibilização por calibração, sinalizando continuidade do processo, mas com espaço cada vez mais restrito.

A leitura implícita é que o Banco Central encara o choque energético como predominantemente temporário e prefere ganhar tempo para avaliar sua persistência. Ainda assim, a combinação de petróleo elevado, câmbio mais sensível e inflação resistente pode levar a pausas no ciclo caso o cenário externo se deteriore.

No campo político, o ambiente eleitoral ganhou relevância adicional. A saída antecipada de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda para disputar o governo de São Paulo introduz nova incerteza fiscal e institucional. Simultaneamente, Ratinho descartou candidatura presidencial, reorganizando o campo da direita.

Pesquisas recentes indicam disputa mais competitiva. Levantamentos mostram deterioração da avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e avanço de nomes da oposição. Pesquisa AtlasIntel aponta Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula em cenário de segundo turno, enquanto dados do PoderData indicam aumento relevante da avaliação negativa do governo. A combinação entre inflação sensível, desgaste natural do incumbente e reorganização política tende a ganhar peso crescente na precificação dos ativos domésticos.

 

Cenário Global

No exterior, o conflito entre Estados Unidos e Irã tornou-se o principal fator de instabilidade global. O mercado passou a reagir quase exclusivamente ao fluxo de notícias militares e diplomáticas, produzindo movimentos abruptos em commodities, moedas e bolsas.

O petróleo chegou a subir mais de 35% em uma semana, aproximando-se de US$ 120 por barril antes de recuar para a faixa entre US$ 90 e US$ 105 após declarações indicando possível negociação. O Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente, chegou a registrar queda no tráfego marítimo de aproximadamente 138 navios por dia para apenas dois em determinados momentos, evidenciando o grau de disrupção logística.

A Agência Internacional de Energia respondeu com a maior liberação coordenada de reservas estratégicas da história, totalizando 400 milhões de barris. Mesmo assim, os preços permaneceram elevados, refletindo dúvidas sobre a normalização da oferta. Paralisações no Catar impulsionaram também o gás natural, configurando o maior choque energético desde a invasão da Ucrânia em 2022.

Segundo estimativas do FMI, um aumento sustentado de 10% no preço da energia pode elevar a inflação global em 0,4 ponto percentual e reduzir o crescimento em 0,2 ponto percentual, reacendendo discussões sobre um ambiente de estagflação leve.

Nos Estados Unidos, os dados econômicos passaram a ser interpretados sob essa nova lente. O payroll de fevereiro mostrou fechamento líquido de 92 mil vagas e elevação da taxa de desemprego para 4,4%, sinalizando desaceleração gradual do mercado de trabalho. A inflação ao consumidor permanece relativamente controlada, em torno de 2,4% em 12 meses, com núcleo próximo de 2,5%, mas o choque energético ameaça interromper o processo desinflacionário.

O Federal Reserve manteve a taxa de juros entre 3,50% e 3,75% e adotou tom claramente hawkish. Jerome Powell condicionou o início do ciclo de cortes à redução das incertezas geopolíticas e à continuidade da desinflação. Chegou-se inclusive a discutir a possibilidade de alta adicional de juros, ainda que não seja o cenário base.

A consequência foi imediata. As expectativas de cortes foram deslocadas para o final do ano, possivelmente dezembro, fortalecendo o dólar globalmente e pressionando ativos de risco. O Dollar Index avançou e a rotação de capital para fora dos Estados Unidos perdeu força.

Esse movimento interrompeu temporariamente o fluxo para emergentes. Fundos internacionais retiraram cerca de US$ 11 bilhões da Ásia ex-China em apenas uma semana, o maior volume em quase quatro anos. O ouro, que vinha funcionando como principal ativo de proteção, perdeu parcialmente essa característica diante da preferência por liquidez em dólar.

Ao mesmo tempo, sinais de fragmentação geopolítica continuam emergindo. Tensões comerciais, acordos regionais alternativos e a busca por segurança energética indicam transição para um modelo econômico global menos baseado em eficiência e mais orientado à resiliência, estruturalmente mais inflacionário.

Na China, o Congresso Nacional do Povo iniciou discussões sobre meta de crescimento entre 4,5% e 5% para 2026 e o novo plano quinquenal, com foco em tecnologia, inteligência artificial e estímulo ao consumo doméstico, que hoje representa cerca de 41% do PIB. O mercado permanece atento à magnitude do estímulo fiscal necessário para compensar a fragilidade do setor imobiliário.

Conclusão

O mês consolidou uma mudança relevante no equilíbrio de riscos globais. O choque energético decorrente da guerra do Irã elevou a incerteza macroeconômica, reduziu a visibilidade sobre política monetária e interrompeu parcialmente o fluxo favorável para mercados emergentes.

No Brasil, apesar do suporte ainda relevante do capital estrangeiro e de fundamentos relativamente sólidos, o petróleo elevado introduz simultaneamente pressões inflacionárias e fiscais, limitando o espaço para cortes mais agressivos de juros. O Banco Central iniciou o ciclo de flexibilização, mas a trajetória futura dependerá cada vez mais da evolução do cenário externo.

Seguimos, portanto, em um ambiente caracterizado por elevada sensibilidade a eventos geopolíticos, no qual disciplina de portfólio, seletividade e gestão ativa tornam-se ainda mais determinantes para preservação de capital. Mantemos atualmente um montante mais elevado em caixa, no aguardo para capturar oportunidade.

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Forte abraço,
Equipe Empiricus Asset