Carta do Gestor
Brasil em Correção, IA em Expansão: Como a divergência entre os mercados está criando oportunidades

O Balanço de Maio
Maio foi marcado pela consolidação de um cenário mais desafiador para os ativos brasileiros e por uma mudança importante na dinâmica dos mercados globais. Enquanto a economia americana continua demonstrando resiliência mesmo diante de juros elevados e da persistência inflacionária causada pela guerra envolvendo o Irã, o mercado passou a direcionar novamente sua atenção para o tema que tem dominado a geração de valor nos últimos trimestres: inteligência artificial.
No Brasil, o mês foi caracterizado por uma combinação desfavorável entre deterioração fiscal, piora da percepção eleitoral da oposição, inflação mais resistente do que o esperado e saída relevante de recursos estrangeiros da bolsa. No exterior, por outro lado, mesmo diante do prolongamento do conflito no Oriente Médio e da consequente pressão sobre energia, inflação e juros globais, os investidores voltaram a concentrar suas apostas no ciclo estrutural de crescimento associado à inteligência artificial, sustentando principalmente os ativos de tecnologia e os índices americanos.
Cenário Doméstico
No cenário doméstico, o principal vetor de deterioração ao longo do mês foi político. Após um primeiro trimestre em que parte relevante do mercado passou a trabalhar com uma eleição mais competitiva e maior probabilidade de alternância de poder em 2026, maio trouxe sinais de enfraquecimento da principal candidatura da oposição.
A pesquisa AtlasIntel divulgada durante o mês mostrou Lula ampliando sua vantagem em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, alcançando 48,9% das intenções de voto contra 41,8% do senador. O movimento representou uma mudança importante em relação ao cenário observado apenas algumas semanas antes, quando ambos apareciam tecnicamente empatados. Mais relevante do que a diferença numérica foi a mudança de percepção.
O mercado vinha atribuindo parte da melhora dos ativos domésticos observada ao longo do primeiro trimestre à expectativa de uma disputa eleitoral mais equilibrada e potencialmente favorável a uma agenda de maior ajuste fiscal. O enfraquecimento relativo da oposição reduziu parte desse prêmio eleitoral, contribuindo para a piora do humor dos investidores.
Ao mesmo tempo, a situação fiscal voltou a ocupar o centro das preocupações. O governo anunciou novos subsídios para combustíveis, incluindo uma subvenção ao diesel de R$ 1,12 por litro poucos dias após a redução promovida pela Petrobras. Paralelamente, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto que extingue a escala 6×1, reduzindo a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas sem redução salarial. Embora ambas as medidas possuam apelo político relevante, especialmente em um contexto pré-eleitoral, elas ampliaram as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas. A percepção predominante é que a conta fiscal acumulada por esse conjunto de iniciativas precisará inevitavelmente ser enfrentada por meio de ajustes futuros, elevando o prêmio de risco exigido pelos investidores para ativos brasileiros.
Os dados econômicos divulgados ao longo do mês também contribuíram para um ambiente menos favorável. A prévia da inflação surpreendeu negativamente ao registrar alta de 0,62%, acima da expectativa de 0,57%. Em doze meses, o indicador voltou a superar o teto da meta, avançando para 4,64%. Mais preocupante do que o número cheio foi sua composição. Os núcleos de inflação, os serviços subjacentes e os indicadores de difusão permaneceram pressionados, sugerindo que o processo inflacionário continua espalhado pela economia. O IPCA oficial de abril trouxe desaceleração marginal para 0,67%, mas novamente apresentou composição qualitativamente desfavorável. Em doze meses, a inflação avançou para 4,39%, reforçando a percepção de que o espaço para flexibilização monetária permanece limitado. Parte importante dessa pressão continua relacionada ao prolongamento da guerra envolvendo o Irã. O petróleo elevado vem pressionando custos logísticos, combustíveis, fertilizantes e alimentos em escala global, dificultando o trabalho dos bancos centrais e contaminando expectativas inflacionárias em diversas economias, inclusive no Brasil.
No mercado financeiro, o resultado foi uma abertura adicional da curva de juros e forte desempenho negativo da bolsa. O Ibovespa recuou mais de 7% em maio, registrando seu pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023 e acumulando o terceiro mês consecutivo de perdas. A saída de capital estrangeiro desempenhou papel central nesse movimento. Apenas em maio foram retirados aproximadamente R$ 14 bilhões da B3, elevando a saída acumulada desde meados de abril para cerca de R$ 27 bilhões. A migração de recursos ocorreu justamente em um momento em que investidores globais voltavam a aumentar exposição às grandes empresas americanas ligadas à inteligência artificial.
Paradoxalmente, os fundamentos corporativos brasileiros não apresentaram deterioração equivalente. A temporada de resultados do primeiro trimestre foi amplamente positiva, com a maioria das companhias entregando um lucro líquido 1,6% acima das projeções e um aumento anual de 7,7%. Ademas, o IPO da Compass, que movimentou R$ 3,2 bilhões e encerrou quase cinco anos sem novas ofertas públicas relevantes na B3, também representou um sinal importante de reativação gradual do mercado de capitais brasileiro.
Dessa forma, embora a combinação entre deterioração fiscal, inflação persistente e enfraquecimento relativo da oposição tenha pressionado os ativos locais, entendemos que a magnitude da correção observada na bolsa foi amplificada pelo forte afluxo de recursos internacionais para o setor global de tecnologia. Como consequência, diversos ativos brasileiros voltaram a negociar em níveis de valuation que consideramos mais interessantes, especialmente diante da resiliência demonstrada pelos resultados corporativos.
Cenário Global
No cenário internacional, o tema dominante continuou sendo a guerra envolvendo o Irã. Três meses após o início do conflito, as negociações seguem marcadas por avanços limitados e recuos frequentes.
O principal foco permanece concentrado no Estreito de Ormuz, responsável por aproximadamente 20% do fluxo global de petróleo. A manutenção parcial das restrições elevou novamente o Brent para a região entre US$100 e US$ 105 por barril, reinstalando um prêmio geopolítico relevante nos mercados de
energia. O risco central deixou de ser um choque temporário e passou a ser a possibilidade de um impacto inflacionário mais duradouro.
Essa preocupação se reflete diretamente nos indicadores econômicos americanos. O CPI atingiu 3,8% em doze meses, maior patamar em três anos. O PPI avançou 6,0% na comparação anual, registrando a maior alta desde 2022. Já os PMIs continuaram apontando expansão da atividade, mas acompanhados de aumento das pressões de custos e deterioração das cadeias globais de suprimento.
Ao mesmo tempo, a economia americana continua demonstrando notável resiliência. O desemprego permanece próximo de 4,3%, a geração mensal de empregos segue entre 70 mil e 180 mil vagas e o crescimento do PIB continua próximo de 2% em termos anualizados.
Esse conjunto de fatores cria um enorme desafio para a nova liderança do Federal Reserve, Kevin Warsh, que assume a condução da instituição em um momento particularmente complexo. Historicamente associado a posições mais favoráveis a juros baixos, Warsh encontra uma economia que continua crescendo, um mercado de trabalho sólido e uma inflação que permanece significativamente acima da meta e condição fiscal deteriorada.
A consequência foi uma nova abertura dos juros longos americanos, com o Treasury de 30 anos ultrapassando 5,1% (seu maior nível desde 2007), enquanto o mercado reduziu substancialmente as apostas em cortes de juros ao longo dos próximos trimestres.
Apesar desse ambiente macroeconômico aparentemente desfavorável, os índices americanos continuaram renovando máximas históricas graças às empresas relacionadas à inteligência artificial. A temporada de resultados do primeiro trimestre reforçou essa narrativa de forma impressionante: os lucros por ação do S&P 500 cresceram 28% na comparação anual, mais que o dobro da expectativa inicial de 13%. Para o ano cheio, o mercado projeta crescimento próximo de 23%, ritmo raramente observado fora de períodos de recuperação pós-recessão.
A Nvidia voltou a liderar esse movimento. A companhia reportou receita de US$ 81,6 bilhões, acima dos US$ 78,9 bilhões esperados, além de lucro ajustado superior às projeções. Foi o décimo quinto trimestre consecutivo de surpresa positiva em receitas e o décimo quarto em lucros. O entusiasmo também passou a ser sustentado pela expectativa de novas aberturas de capital. OpenAI trabalha nos preparativos para um IPO potencialmente histórico, enquanto a Anthropic também avalia acessar o mercado.
Juntas, essas empresas representam alguns dos principais símbolos da corrida global pela liderança em inteligência artificial.
O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping reforçou ainda mais essa percepção. Realizada em Pequim após quase uma década sem uma visita presidencial americana à China, a reunião teve a inteligência artificial e os semicondutores como temas centrais. A presença de executivos como Jensen Huang, Tim Cook, Elon Musk e Larry Fink evidenciou o papel estratégico que a tecnologia passou a desempenhar na relação entre as duas maiores economias do mundo.
O resultado é um mercado que continua disposto a conviver com juros elevados desde que o crescimento dos lucros das empresas de tecnologia permaneça excepcional. O Nasdaq voltou a liderar os ganhos globais, sustentado pela combinação entre resultados robustos, expectativas de IPOs e investimentos bilionários em infraestrutura digital.
Conclusão
Encerramos maio observando um contraste cada vez mais evidente entre os desafios domésticos e o dinamismo do ciclo global de inteligência artificial. No Brasil, o enfraquecimento da oposição, a deterioração fiscal e a inflação persistente pressionaram os ativos locais.
No exterior, a guerra envolvendo o Irã continua representando importante fonte de risco inflacionário, mas a força dos resultados corporativos ligados à IA tem sido suficiente para sustentar os mercados.
Seguimos acompanhando atentamente a evolução do conflito no Oriente Médio, a trajetória da inflação global e os desafios enfrentados pelos bancos centrais. Ao mesmo tempo, entendemos que a recente correção dos ativos brasileiros ocorreu em intensidade superior à deterioração observada nos fundamentos corporativos, criando oportunidades seletivas em um mercado que volta a negociar a múltiplos mais atrativos.
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Equipe Empiricus Asset