Carta do Gestor

Entre o alívio geopolítico e os desafios fiscais

Equipe Empiricus Asset

2 jul 2026, 11:26 (Atualizado em 2 jul 2026, 12:02)

O balanço de Junho

Junho foi um mês de transição para os mercados globais. A redução das tensões envolvendo Irã e Estados Unidos trouxe um importante alívio para os ativos de risco, principalmente pela queda expressiva do petróleo e pela diminuição do prêmio geopolítico que vinha pressionando a inflação mundial desde abril. Ainda assim, o cenário permaneceu longe da normalidade. Os principais bancos centrais continuam enfrentando um ambiente marcado por inflação resiliente, crescimento econômico ainda sólido e profundas transformações estruturais impulsionadas pela inteligência artificial, que seguem remodelando os fluxos globais de investimento.

No Brasil, entretanto, o ambiente permaneceu mais desafiador. A ausência de gatilhos capazes de atrair novamente o investidor estrangeiro, somada à continuidade das preocupações fiscais e às incertezas do cenário político, manteve pressão sobre a bolsa e sobre a curva de juros.
Embora alguns indicadores de atividade tenham começado a mostrar desaceleração, favorecendo a expectativa de continuidade do ciclo de cortes da Selic, o quadro doméstico continua limitado pela fragilidade fiscal e pela dificuldade de reancoragem das expectativas de inflação.

Cenário Doméstico

No cenário doméstico, o principal tema continuou sendo a dificuldade de recuperação dos ativos brasileiros diante da persistente saída de recursos estrangeiros. Após o forte movimento vendedor iniciado na segunda quinzena de abril, junho foi marcado pela ausência de fatores capazes de justificar uma recomposição relevante de posições por parte dos investidores internacionais – que retiraram ~ R$ 8 bi da B3 em junho (vs. Saída de ~R$ 15 bi em maio).

Parte importante dessa cautela decorre do cenário político. O mercado continua encontrando poucos elementos que sustentem uma melhora significativa das expectativas eleitorais para 2026. Já na frente fiscal, as notícias também seguem desfavoráveis com o Senado aprovando o projeto que amplia os mecanismos de renegociação das dívidas do setor rural com potencial utilização de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Segundo estimativas apresentadas pelo Ministério da Fazenda, o impacto fiscal poderá variar entre R$ 140 bilhões e mais de R$ 800 bilhões ao longo da próxima década, dependendo da adesão ao programa.

Ao mesmo tempo, os números das contas públicas continuam evidenciando um desequilíbrio importante entre receitas e despesas. Nos cinco primeiros meses do ano, as receitas do Governo Central cresceram 5,5% acima da inflação, enquanto as despesas avançaram 13,5% em termos reais, impulsionadas principalmente pelos gastos com previdência, pessoal e precatórios. O déficit nominal atingiu R$ 149 bilhões, enquanto somente as despesas com juros somaram R$ 107,5 bilhões em um único mês.

Esse ambiente reforça a percepção de que a política monetária continua funcionando praticamente como a única âncora macroeconômica disponível, limitando a capacidade do Banco Central de promover uma flexibilização mais intensa da Selic. Embora o Copom tenha decidido reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, passando de 14,50% para 14,25% ao ano, a principal surpresa foi a comunicação pouco clara da autoridade monetária. Embora o Banco Central tenha reconhecido explicitamente que a inflação permanece acima da meta, que as expectativas continuam deterioradas, que a atividade econômica segue relativamente resiliente e que os riscos fiscais permanecem elevados, o comunicado evitou sinalizar claramente o encerramento do ciclo de cortes, mantendo aberta a possibilidade de novas reduções ao longo dos próximos meses. Essa postura foi inicialmente interpretada como excessivamente flexível por parte do mercado.

Ao longo das semanas seguintes, entretanto, essa percepção começou parcialmente a mudar. A divulgação da ata do Copom, do Relatório de Política Monetária e das comunicações de Gabriel Galípolo ajudou a esclarecer parte das dúvidas, enquanto novos indicadores econômicos passaram a mostrar perda gradual de dinamismo da economia. O IPCA desacelerou de 0,67% para 0,58% em maio, embora tenha vindo acima da expectativa de 0,53%. Em doze meses, contudo, a inflação voltou a acelerar para 4,72%, permanecendo acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central. Já o IPCA-15 apresentou composição mais benigna, os núcleos de inflação mostraram melhora gradual e, principalmente, diversos indicadores de atividade surpreenderam negativamente. As vendas no varejo ficaram abaixo das projeções, o IBC-Br voltou a decepcionar e o mercado de trabalho passou a perder parte do dinamismo observado ao longo dos últimos trimestres com o Caged mostrando uma criação líquida de apenas 72.960 vagas formais em maio, resultado bastante inferior à expectativa de 120 mil pelo mercado e 52% abaixo do observado no mesmo período do ano anterior.

Com dados econômicos mais arrefecidos e avanços no acordo entre Irã e EUA, derrubando o preço do petróleo, parte relevante dos investidores voltou a incorporar em seus cenários a possibilidade de mais um corte de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto, ainda que o consenso continue apontando para juros elevados por um período prolongado e elevada dependência da evolução do cenário fiscal.

Cenário Global

No cenário internacional, o mês foi marcado por uma melhora importante da percepção de risco associada ao Oriente Médio. Após meses de elevada tensão, Estados Unidos e Irã anunciaram avanços concretos nas negociações, permitindo uma retomada gradual da circulação de navios pelo Estreito de Ormuz e reduzindo significativamente o prêmio geopolítico incorporado ao petróleo. O Brent recuou de aproximadamente US$ 125 para níveis próximos de US$ 76 por barril, enquanto Washington suspendeu parte das restrições comerciais ao petróleo iraniano, autorizando temporariamente novas exportações para importantes economias asiáticas. Apesar desse avanço, a normalização permanece incompleta. Persistem divergências relevantes envolvendo inspeções nucleares, limites ao enriquecimento de urânio, utilização dos ativos financeiros desbloqueados e, principalmente, a administração futura do Estreito de Ormuz. Além disso, as tensões envolvendo Hezbollah e Israel continuam representando importante risco para uma eventual reescalada regional.

A queda do petróleo reduziu parte das preocupações imediatas com inflação global, mas não eliminou os efeitos acumulados dos meses anteriores. Os bancos centrais continuam alertando que o choque energético já começou a contaminar serviços, salários e expectativas inflacionárias, tornando o processo de desinflação mais lento do que o inicialmente esperado. Nos Estados Unidos, os indicadores econômicos seguiram reforçando essa leitura. O CPI acelerou de 3,8% para 4,2% em doze meses, enquanto o núcleo avançou para 2,9%. O PPI surpreendeu novamente, registrando alta mensal de 1,06% e acumulando 6,5% em doze meses, maior nível desde o final de 2022.

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho continua bastante resiliente. O relatório JOLTS mostrou 7,62 milhões de vagas abertas, acima das expectativas, enquanto o payroll registrou criação de 172 mil empregos em maio, praticamente o dobro do consenso. A taxa de desemprego permaneceu em 4,3%, reforçando a percepção de uma economia que continua crescendo em ritmo suficientemente forte para sustentar o consumo e os lucros corporativos.
Foi justamente nesse ambiente que Kevin Warsh conduziu sua primeira reunião como presidente do Federal Reserve. A taxa básica foi mantida entre 3,50% e 3,75%, mas a principal mudança esteve na comunicação. Warsh deixou claro que o combate à inflação passa a ocupar prioridade absoluta, reduziu significativamente o uso de forward guidance e sinalizou que pretende tornar o mercado mais dependente dos dados econômicos do que das indicações antecipadas do próprio banco central. Ademais, as novas projeções mostraram um número significativamente maior de dirigentes admitindo altas adicionais de juros ao longo de 2026, refletindo preocupação crescente com a persistência inflacionária.

Apesar do alívio no Oriente Médio, voltaram a ganhar destaque os riscos relacionados à política comercial americana. Após parte das tarifas anteriores ter sido invalidada judicialmente, o governo Trump apresentou uma nova rodada de medidas protecionistas. Entre elas estão tarifas de 12,5% sobre determinados produtos brasileiros, além de uma proposta mais ampla envolvendo aproximadamente sessenta parceiros comerciais, com alíquotas mínimas de 10% para diversos países desenvolvidos e tarifas de até 12,5% para economias como Brasil, China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Embora o impacto macroeconômico direto dessas medidas ainda pareça limitado, o retorno do tema tarifário reacendeu preocupações com inflação importada e com eventuais novos obstáculos ao comércio global.

Os efeitos foram particularmente visíveis no setor de tecnologia. O mês começou de maneira bastante positiva, sustentado pela expectativa de novos IPOs de empresas ligadas à inteligência artificial e pela continuidade dos elevados investimentos em infraestrutura digital. Entretanto, à medida que os juros americanos voltaram a subir e os riscos tarifários ganharam força, ocorreu uma realização expressiva de lucros nas empresas de tecnologia.

A Broadcom decepcionou parte dos investidores ao manter inalteradas suas projeções para o segmento de chips de inteligência artificial, enquanto surgiram dúvidas sobre um eventual adiamento do IPO da OpenAI e ocorreram fortes correções nas fabricantes sulcoreanas de semicondutores. Ainda assim, os fundamentos estruturais da inteligência artificial continuam robustos. A Micron apresentou crescimento de receita de 346%, lucros muito acima das expectativas e confirmou que a escassez global de memórias HBM deverá persistir pelo menos até 2027. Ao mesmo tempo, Microsoft firmou acordos de longo prazo para garantir fornecimento de energia aos seus data centers, enquanto Japão e Coreia do Sul anunciaram novos investimentos bilionários em infraestrutura tecnológica.

Conclusão

Em síntese, junho trouxe uma melhora importante na percepção de risco geopolítico, principalmente em função do avanço das negociações envolvendo Irã e Estados Unidos e da forte queda do petróleo. Ainda assim, a inflação continua sendo o principal desafio para os bancos centrais, limitando o espaço para cortes de juros e mantendo elevada a volatilidade dos mercados.

No Brasil, a desaceleração gradual da atividade econômica começa a abrir espaço para uma flexibilização adicional da política monetária. Entretanto, a ausência de uma âncora fiscal mais crível, combinada à falta de gatilhos capazes de reverter o fluxo estrangeiro para os ativos domésticos, continua impedindo uma recuperação mais consistente da bolsa e da curva de juros.

Embora o valuation das empresas domésticas já comece a chamar a nossa atenção, seguimos cautelosos acompanhando atentamente a essa combinação entre política monetária, dinâmica fiscal, fluxos globais de capital, fatores que continuarão determinando o comportamento dos mercados ao longo dos próximos meses.

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