Carta do Gestor
Da Expectativa ao Resultado: O Novo Teste para os Mercados Globais
O balanço de Julho
Caros leitores, julho foi marcado por um ambiente de maior volatilidade nos mercados globais, impulsionado pela combinação entre incertezas geopolíticas, reprecificação das expectativas para a política monetária americana e uma mudança importante na percepção dos investidores em relação ao setor de tecnologia e inteligência artificial.
No Brasil, embora os indicadores econômicos tenham reforçado a perspectiva de continuidade do ciclo de cortes da Selic, os ativos domésticos continuaram limitados pela deterioração fiscal, pelas incertezas políticas e pela ausência de catalisadores capazes de atrair novamente o fluxo estrangeiro.
Cenário Doméstico
No cenário doméstico, a principal mudança observada ao longo do mês foi a consolidação de um ambiente econômico mais favorável para a continuidade do afrouxamento monetário. A atividade seguiu apresentando perda gradual de dinamismo, com diversos indicadores frustrando as expectativas do mercado. A produção industrial recuou 0,2% em maio (ante expectativa de alta de 0,3%), enquanto as vendas no varejo avançaram apenas 0,1% (abaixo da projeção de 0,7%). O setor de serviços também desacelerou, e o mercado de trabalho continuou dando sinais de moderação, com a taxa de desemprego medida pela PNAD em 5,4%, em linha com as expectativas, mas acompanhada por desaceleração do ritmo de contratações observado no Caged. O IBC-Br também surpreendeu negativamente ao registrar avanço de apenas 0,1%, reforçando a percepção de que a economia começa a responder ao elevado nível de juros observado ao longo dos últimos trimestres.
A inflação também trouxe surpresas positivas durante o mês. O IPCA de junho avançou apenas 0,16%, significativamente abaixo das projeções, enquanto o IPCA-15 de julho registrou alta de apenas 0,06%, refletindo melhora disseminada da dinâmica inflacionária, com desaceleração dos núcleos, menor pressão sobre bens industriais e deflação em alimentos. O IGP-M voltou a registrar deflação e diversos indicadores antecedentes passaram a sugerir que as pressões inflacionárias seguem perdendo intensidade. Esse conjunto de dados fortaleceu a percepção de que o Banco Central possui espaço para realizar pelo menos mais um corte de 25 pontos-base na Selic, chegando inclusive a surgir discussões sobre uma eventual redução de 50 pontos-base após a divulgação do IPCA-15, hipótese que, embora pouco provável, voltou a fazer parte das discussões do mercado.
Apesar da melhora do ambiente para a política monetária, o desempenho dos ativos domésticos permaneceu condicionado principalmente aos riscos fiscais e políticos. O quadro das contas públicas continuou se deteriorando, com o déficit nominal projetado para encerrar o atual mandato presidencial próximo de 8,6% do PIB, dívida bruta acima de 81% do PIB e déficits primários permanecendo entre os maiores das últimas décadas.
Ao mesmo tempo, novas propostas de aumento de gastos, como a PEC da aposentadoria especial dos agentes de saúde, a possível capitalização dos Correios e outras despesas obrigatórias, reforçaram a percepção de enfraquecimento da âncora fiscal. Na prática, a política monetária continua sendo o principal instrumento de estabilização da economia, enquanto a ausência de uma política fiscal mais crível limita a magnitude do fechamento da curva de juros de longo prazo.
O cenário político também voltou a exercer influência importante sobre os preços dos ativos. Pesquisas eleitorais divulgadas ao longo do mês mostraram aumento da vantagem do presidente Lula em simulações de segundo turno, elevando entre investidores a percepção de menor probabilidade de alternância de poder em 2027 e reduzindo parte do prêmio anteriormente embutido nos ativos brasileiros. Paralelamente, rumores envolvendo possíveis investigações sobre lideranças da oposição ampliaram a cautela dos investidores. Essa combinação contribuiu para interromper o movimento de fechamento dos juros futuros observado anteriormente e manteve o fluxo estrangeiro relativamente fraco, já que o mercado continua enxergando poucos gatilhos capazes de justificar uma alocação mais relevante em ativos brasileiros.
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras também permaneceram no radar. Embora o impacto macroeconômico estimado continue relativamente limitado — dado que as exportações para os Estados Unidos representam menos de 2% do PIB brasileiro e diversas exceções tenham sido preservadas —, a medida adiciona mais uma camada de incerteza ao ambiente de negócios e reforça a percepção de um cenário internacional mais protecionista. O principal risco permanece concentrado na possibilidade de novas investigações ampliarem as tarifas efetivas para determinados setores ao longo dos próximos meses.
Cenário Global
No cenário internacional, o mês foi inicialmente marcado pela reescalada das tensões entre Estados Unidos e Irã. Os novos episódios envolvendo ataques na região do Estreito de Ormuz e de Bab el-Mandeb elevaram temporariamente o prêmio de risco da energia, levando o petróleo Brent a se aproximar de US$ 100 por barril diante dos receios de interrupção das principais rotas globais de transporte de petróleo. Posteriormente, contudo, o aumento da produção anunciado pela Opep+, a retomada gradual da navegação e a redução das preocupações com um bloqueio prolongado contribuíram para devolver parte desse movimento, reduzindo novamente a pressão sobre os preços
da energia e sobre as expectativas de inflação global.
Ao mesmo tempo, os indicadores econômicos americanos passaram a mostrar uma desaceleração gradual da economia. O payroll de junho registrou criação de apenas 57 mil vagas, bem abaixo das expectativas, enquanto revisões negativas dos meses anteriores reforçaram a percepção de perda de dinamismo do mercado de trabalho. A inflação também apresentou sinais mais favoráveis, com o CPI anual recuando para 3,5%, após forte queda dos preços de energia, enquanto o PCE registrou deflação de 0,11% no índice cheio e alta de aproximadamente 0,15% no núcleo. O chamado supercore desacelerou de 0,52% para 0,12% no mês, indicando perda de intensidade das pressões inflacionárias sobre serviços. O PIB do segundo trimestre cresceu 1,5% em termos anualizados, abaixo da expectativa de 2,0%, embora o consumo das famílias tenha permanecido robusto, avançando 3,2%, e o investimento privado tenha crescido 3,0%, preservando a resiliência da demanda doméstica. Esse conjunto de indicadores reduziu significativamente as apostas em uma nova alta de juros pelo Federal Reserve e sustentou a decisão do banco central de manter a taxa básica entre 3,50% e 3,75% ao ano.
Apesar da manutenção dos juros, o mercado continua tentando compreender a função de reação da nova gestão do Federal Reserve sob a liderança de Kevin Warsh. Embora o presidente tenha reconhecido alguma melhora recente das pressões inflacionárias, reforçou repetidamente que a estabilidade de preços permanece como prioridade absoluta da instituição. Sua opção por reduzir significativamente o forward guidance e adotar uma postura mais dependente dos dados econômicos aumentou a incerteza dos investidores em relação ao comportamento futuro da política monetária, contribuindo para maior volatilidade na curva de juros americana ao longo do mês.
Entretanto, o principal tema dos mercados globais em julho foi a reprecificação das expectativas em torno do setor de tecnologia e da inteligência artificial. Após mais de um ano de forte valorização praticamente ininterrupta, os investidores passaram a questionar com maior intensidade a capacidade das grandes empresas de transformar os elevados investimentos em infraestrutura de IA em crescimento sustentável de lucros e geração de caixa. O aumento contínuo das despesas de capital, a expansão acelerada da capacidade instalada de data centers e as dúvidas sobre eventual excesso de oferta tornaram o mercado muito mais sensível aos resultados corporativos divulgados durante a temporada de balanços.
As reações passaram a ser extremamente intensas. Alphabet e Tesla registraram quedas expressivas após resultados considerados decepcionantes e projeções de investimentos ainda maiores em inteligência artificial. A Meta também sofreu pressão semelhante diante das preocupações com o elevado volume de capex. No segmento de semicondutores, a volatilidade foi ainda mais acentuada. A SK Hynix chegou a acumular queda próxima de 20% após resultados abaixo das expectativas, enquanto Samsung também sofreu forte realização. O ETF de semicondutores registrou uma das maiores correções do ano após rumores de possível excesso de capacidade em infraestrutura de inteligência artificial, evidenciando que o mercado passou a diferenciar com muito mais rigor as empresas capazes de transformar investimentos em retorno financeiro.
Ao mesmo tempo, o avanço dos concorrentes chineses adicionou uma nova camada de incerteza ao setor. O lançamento do modelo Kimi K3 pela Moonshot AI reacendeu comparações com os principais modelos americanos, enquanto DeepSeek avançou em seus planos de abertura de capital e empresas como a CXMT passaram a representar uma ameaça crescente ao mercado global de memórias. A notícia de que fabricantes chineses iniciaram a produção em escala de equipamentos de litografia também aumentou as preocupações com uma possível expansão da capacidade produtiva mundial e maior competição para empresas como Micron, Samsung, SK Hynix e até mesmo Nvidia no médio prazo.
Apesar dessa forte volatilidade, a temporada de resultados também trouxe confirmações importantes de que a tese estrutural de inteligência artificial permanece sólida. Microsoft foi o principal destaque positivo do mês após divulgar crescimento de 43% da Azure, reforçando a capacidade de monetizar seus investimentos mantendo elevada rentabilidade. Amazon também apresentou números robustos, impulsionados pelo forte desempenho da AWS, enquanto Intel surpreendeu positivamente ao acelerar seu crescimento em data centers e IA. Entre os bancos americanos, JPMorgan, Goldman Sachs, Bank of America e Citigroup voltaram a registrar resultados expressivos, beneficiados pelo aumento da atividade nos mercados de capitais e pelas receitas ligadas à expansão da infraestrutura tecnológica.
Conclusão
Em síntese, julho consolidou uma mudança importante no comportamento dos mercados. No Brasil, a combinação entre desaceleração da atividade e inflação mais benigna fortaleceu as apostas em novos cortes da Selic, mas a deterioração fiscal, as incertezas eleitorais e a ausência de fluxo estrangeiro continuaram limitando o desempenho dos ativos domésticos. No exterior, embora a economia americana tenha apresentado sinais de desaceleração suficientes para manter o Federal Reserve em compasso de espera, a combinação entre riscos geopolíticos, políticas comerciais mais protecionistas e, principalmente, a crescente exigência dos investidores por retornos concretos sobre os elevados investimentos em inteligência artificial tornou os mercados significativamente mais seletivos e voláteis.
No momento, enxergamos maiores assimetrias no mercado global. Ao nosso ver, a tese estrutural de IA permanece intacta, mas o foco dos investidores passou a migrar da expectativa de crescimento para a capacidade efetiva de geração de lucros e retorno sobre o capital investido, inaugurando uma nova etapa para o setor de tecnologia global. Seguimos otimistas em relação ao setor, especialmente após o recente drawdown, no entanto cautelosos na alocação, dada a elevada volatilidade e incerteza geopolítica.
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Equipe Empiricus Asset
